terça-feira, 17 de maio de 2011

Estudos da compaixão

Existe algo que me incomoda na prática médica e estudo da medicina. Acompanho alunos da área de saúde na Universidade da Califórnia, desde a entrada na faculdade até a formação profissional. Vejo estudantes brilhantes cursando o primeiro ano, cheios de vontade de aprender mais sobre os mistérios das doenças e com curiosidade sobre a percepção do paciente. Porém, já no final do curso, encontro profissionais “gelados”, buscando a solução para o problema o mais rápido possível para se dedicar ao próximo paciente.

Esse modelo, que não acredito que seja restrito aos EUA, ensina ao profissional de saúde a se afastar do paciente, procurando a não-interação ou a ausência do contato pessoal. Isso acontece como forma de defesa, prevalecendo o medo de se relacionar com o paciente ao se aproximar aos problemas dele. A relação médico-paciente acaba se restringindo a doença e tratamento. Talvez isso seja um reflexo da dinâmica da sociedade moderna. O fato é que esse tipo de atitude acaba por afetar o processo de cura, causando confusão de diagnósticos ou mesmo atrasando todo o tratamento. É contra-produtivo.

Meu questionamento parte de um principio da neurociência. Estudos de empatia e altruísmo, tanto em animais como humanos, sugerem que ao nos colocarmos mentalmente no lugar de um indivíduo com determinada dor, somos mais capazes de distinguir e entender o sofrimento alheio. Pessoas com baixo nível de empatia ignoram esse tipo de “dica não-verbal” e não correspondem à expectativa do outro. É interessante notar que esses trabalhos conseguem realmente quantificar o nível de compaixão utilizando métodos de neurociência sofisticados, como ressonância cerebral, ou testes bem simples, como identificar rostos com mais ou menos sofrimento em fotografias.

Mas como treinar os profissionais a ter compaixão? Neurônios chamados de “vonEconomo”, presentes na ínsula frontal do córtex e em parte do sistema límbico anterior, seriam responsáveis pela geração do sentimento de compaixão e consciência social. Esses neurônios são mais abundantes em humanos do que em outros “apes” (superfamília que inclui macacos de grande porte e humanos) e, aparentemente, não existem em outros primatas. Também foram encontrados em elefantes e baleias, o que talvez indique que cérebros grandes usem esses neurônios para conectar regiões fisicamente afastadas (Allman e colegas Ann. NY. Acad. Sci, 2011).

Estudos de meditação com monges budistas permitiram descobrir que com treinamento adequado é possível induzir essas regiões do cérebro, aquecendo-as ou resfriando-as mentalmente. O aquecimento dessas regiões (não necessariamente um aquecimento físico, mas mental, induzindo o metabolismo) conseguiu alterar a compaixão sentida pelos indivíduos quando expostos a faces de outras pessoas sofrendo. A distinção da dor torna-se muito mais sensível. Resfriando essa região cerebral deixaria o individuo com menos compaixão.

Isso significa que podemos controlar mentalmente o nível de compaixão em determinadas situações. Esse tipo de treinamento permitiria que profissionais de saúde aquecessem mentalmente a ínsula frontal do córtex antes de interagir com o paciente, amplificando e reforçando a percepção do sofrimento. Ao final da consulta, o profissional poderia então esfriar a ínsula, desligando-se do paciente e evitando um conflito emocional.

Obviamente, esse treinamento deveria fazer parte do currículo de graduação dos profissionais de saúde que interagem diretamente com pacientes. Infelizmente, não acho que estamos preparados para esse tipo de estratégia. Falta reconhecimento de que a compaixão auxilie no tratamento por parte dos profissionais e mesmo dos próprios pacientes. Enquanto não chegamos lá, penso também que esse tipo de treinamento fosse útil não apenas num contexto de saúde, mas em outras esferas sociais, como debates políticos, ou mesmo no dia-a-dia. Temple Grandin, uma autista norte-americana, conseguiu aplicar a compaixão no design de matadouros de gado para redução de estresse, diminuindo o sofrimento dos animais. Existem outros exemplos de compaixão melhorando nossa qualidade de vida. Pergunto como seria o mundo daqui a 50 anos se conseguíssemos treinar as crianças de hoje a ter mais compaixão?

Publicado originalmente aqui!

4 comentários:

sissi . disse...

Ola,

É isso que percebo mesmo quando vou ao medico ou levo meu filho no medico, eles estão cada vez mais frios , impenetraveis e com um senso de humor desagradavel, no qual so eles acham graça, eu não acho.
Parece que você esta entrando numa loja, eles te olham conforme esta vestido, lamentavel !!!
Realmente lamentavel o que esta acontecendo.

sissi . disse...

Obrigado
Paz e luz!

rosana disse...

Infelizmente os pais não tem mais tempo de se compadecer dos seus filhos. O que geralmente acontece é que as crianças são praticamente abandonadas nas escolas ou aos cuidados de profissionais dentro do próprio lar.
A criança que não obteve compaixão de seus pais dificilmente saberá sentir compaixão na fase adulta.
Esse resgate precisa ser feito, mas não é fácil...

Muito grata pelo post
Gasshô
Rosana.

Sandra disse...

Que situação triste a que encontramos hoje em dia quando dependemos desses médicos robotizados e frios.Eu fico atônita quando estou diante da frieza de um,é como se o médico odiasse estar ali ou odiasse a minha necessidade do seu comprometimento com a cura.Poucas palavras,alguns nem tocam para examinar.Sabe,as vezes me pego sonhando com um mundo até utópico...repleto de compaixão.Penso na minha rua aqui em Curitiba onde ninguém se fala,nem mesmo com uma saudação matinal.Obrigada pelos posts maravilhosos com que vc tem nos presenteado,nos tornando mais informados e impertinentes.E com isso pessoas raras,melhores.