segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O Budismo tem uma visão negativa da vida? O Budismo é niilista?


por Michael Beisert

1. O Budismo é uma doutrina com uma visão negativa da vida? O Budismo é niilista?

Não, o Budismo não tem uma visão negativa da vida e nem é niilista. Mas é uma realidade que no Ocidente o Budismo tem sido rotulado como uma religião negativa que enfatiza o sofrimento e a negação da vida, que defende o niilismo.

2. Porque o Budismo recebeu esse rótulo negativo no Ocidente?

Essa idéia surgiu entre filósofos europeus durante o século 19. Na época, vários escritores influentes, baseados em leituras falhas dos textos Budistas, rotularam o Budismo como uma forma perigosa de niilismo.

Mais recentemente, esse tipo de idéia prevalece mesmo dentro da Igreja Católica, como pode ser constatado no livro "Crossing the Threshold of Hope", escrito pelo Papa João Paulo II. Nesse livro, o Papa afirma que a iluminação do Buda teve como base a convicção de que o mundo representa o mal e é a fonte de sofrimento do homem. Dessa forma, para se livrar do sofrimento é necessário se livrar do mundo. Seria necessário romper os vínculos que nos atam à realidade externa. Quanto mais nos libertarmos desses vínculos mais nos libertaremos do sofrimento, isto é, do mal que provém do mundo.

O Buda nunca afirmou que o mundo é a fonte do mal e do sofrimento. A ênfase do ensinamento Budista está na mente e não no mundo. O mundo é neutro – é a mente do homem que cria dificuldades no mundo. A fonte do sofrimento, de acordo com o ensinamento do Buda, é a cobiça e a raiva numa mente confusa. Essas características não são do mundo, mas do próprio homem.

3. Mas o que é o niilismo?

Niilismo é uma designação atribuída a várias filosofias radicais que rejeitam todo e qualquer valor positivo e não acreditam em nada. Os niilistas adotam um visão materialista da vida e afirmam que depois da morte não há nada. Ou seja, com a morte, esse tipo de doutrina considera que não só o corpo é aniquilado, mas a mente também é completamente aniquilada.

O Budismo rejeita esse tipo de doutrina e afirma que após a morte há a continuidade da consciência. Não no sentido de uma entidade permanente, como por exemplo uma alma ou espírito, mas uma consciência que está sujeita a um contínuo processo de vir a ser ou devir. Além disso, a doutrina de karma, ou lei da natureza relativa às ações e suas conseqüências, que faz parte dos ensinamentos centrais no Budismo, também é evidência de que o Budismo não ensina a aniquilação completa com a morte.

4. Mas o vazio ou vacuidade no Budismo não é uma afirmação niilista?

O termo técnico Budista shunyata (em sânscrito) ou suññata (em Pali) tem dado origem a mal entendidos no Ocidente, onde esse termo é interpretado como o nada, a ausência ou extinção da existência. Shunyata, ou vacuidade, é um sinônimo para a origem dependente. A origem dependente é provavelmente o ensinamento Budista mais importante e em essência afirma que todas as coisas, quer sejam materiais ou mentais, surgem, subsistem e desaparecem de acordo com causas e condições.

Nenhum tipo de coisa existe de forma autônoma, independente de causas e condições. Essas causas e condições são internas e externas. Por exemplo, uma árvore depende para sua sobrevivência do seu tronco, raízes, galhos e folhas, que são as suas condições internas, mas também a árvore depende da terra, do sol, do abastecimento de água e das condições climáticas de uma forma geral para a sua sobrevivência, essas são as condições externas. Sem estar suportada por essas condições a árvore não existe, o que leva à conclusão de que a árvore em si é vazia.

Uma outra forma de análise é observar que as condições internas na verdade são partes nas quais a árvore pode ser dividida e ao dividir a árvore em partes, não há nada nessas partes que contenha em si a característica de árvore. A idéia da árvore é um conceito criado pela mente a partir da união daquelas partes e assim sendo a árvore em si é vazia.

Então, não é que o Budismo negue a existência das coisas, mas o que é negado é que as coisas possuam algum tipo de existência independente, autônoma. Se as coisas tivessem uma existência autônoma então o mundo seria estático, permanente. É evidente que esse não é o caso. Como as coisas são desprovidas de uma existência independente, autônoma, e dependem de causas e condições para se manifestar, é dito que as coisas são vazias, vazias de uma existência inerente. E justamente pelo fato das coisas serem vazias que a mudança é possível. As coisas mudam quando as condições das quais elas dependem mudam. Esse entendimento é o que viabiliza toda a prática Budista pois o caminho Budista trata da mudança, da transformação dos estados mentais inábeis, ou prejudiciais, em estados mentais hábeis, ou benéficos.

5. O Budismo então também rejeita a eternidade?

A idéia de uma vida eterna ou de coisas que durem para sempre é rejeitada no Budismo. Se analisarmos as coisas neste mundo com atenção é possível verificar que não há absolutamente nada que seja permanente. Todas as coisas, quer sejam na nossa mente e corpo ou no exterior, exibem a mesma característica de impermanência e instabilidade. As coisas surgem e desaparecem de acordo com causas e condições.

6. Mas e com relação ao sofrimento. Porque o Budismo coloca tanta ênfase no sofrimento?

A visão Budista do mundo pode ser descrita como realista. Ninguém pode negar que há sofrimento na vida. O envelhecimento, a enfermidade e a morte são causas de sofrimento para a maioria das pessoas. Também no dia a dia as pessoas estão sujeitas a todo tipo de desconfortos físicos e mentais que causam sofrimento e estresse em graus variados. Na verdade, para a maioria das pessoas a vida contém momentos de alegria e felicidade mais ou menos na mesma proporção de momentos de tristeza e infelicidade. Poderíamos chamar isso de padrão de uma vida normal e o Budismo simplesmente reconhece isso e afirma que não há nada de errado nisso. Se as pessoas sofrem elas não precisam se culpar por isso, visto que sofrer faz parte da vida.

Para curar um enfermo, a primeira coisa que um médico precisa fazer é um diagnóstico preciso para então saber qual o tratamento a ser prescrito. O Buda ao transmitir os seus ensinamentos agiu como um médico. O diagnóstico da condição humana é que o sofrimento é a experiência comum a todos os seres vivos, em forma de descontentamento, insatisfação ou tristeza. Em vista desse diagnóstico, o Buda prescreveu a maneira de dar um fim ao sofrimento; e o tratamento para dar um fim ao sofrimento é o núcleo da prática Budista. O sofrimento é a experiência que nos leva ao despertar, pois quando sofremos, tendemos a investigar, a ter curiosidade, a buscar uma saída.

O Budismo, na realidade, nos apresenta a oportunidade de despertar para a nossa verdadeira natureza, para a verdadeira liberdade, para o amor e a compaixão. Ele proporciona uma visão positiva do potencial humano para encontrar a verdadeira felicidade.

Extraído do site www.acessoaoinsight.net

sábado, 27 de dezembro de 2008

Culto ao prazer


Uma das características das formas tradicionais de Buddhismo é uma desconfiança básica quanto à nossa relação com o prazer. Simplesmente não sabemos lidar com ele, e, na verdade, raramente conseguimos não nos manter viciados em suas várias formas. Isso não é um problema atual, mas faz parte da história da humanidade; porém nos últimos séculos tem se tornado não apenas um vício, mas algo incentivado, aceito, idolatrado.

Se na história antiga de todos os povos, geralmente influenciados por ensinamentos religiosos e éticos, ainda havia uma ênfase na importância da moderação, da vergonha moral, da vida simples que seguia o caminho do meio, hoje, pelo contrário, as principais forças sociais e econômicas se nutrem da força do desejo. A publicidade e o comércio não existiram na forma que existem hoje, senão pelo culto ao 'mais e mais belo e mais potente...'; companhias fazem ações sociais não pelo bem que se quer fazer, mas pelo desconto que terão no imposto de renda; políticos não mostram ou comentam o que fizeram, mas o que farão no futuro (baseando-se então nas expectativas do povo, e não na realidade como suas plataformas), isso em meio a showmícios, festas e compras de votos (ó! será que isso ainda ocorre no Brasil?...); a cultura cada vez mais valoriza a pessoa sem barreiras morais, e liberdade se tornou não mais o ideal interior da pessoa superior mas o seguir sem rédeas toda e qualquer vontade dos sentidos.

Não é a toa que o Buddhismo não seja popular atualmente. Opss! Mas o Buddhismo É cada vez mais popular! E isso deveria nos fazer pensar, não? Como os 'budismos' que se tornam populares o fazem nessa cultura atual? Que exceções, meio-termos e omissões precisam efetivar para que sejam aceitos na cultura? Quanto devem omitir dos ensinamentos do Buddha para quem sejam consumidos, pessoas apareçam e sejam considerados legais? 'Ser budista' está na moda, não?

E junto com o vício no prazer vem o culto à personalidade, dentro e fora do 'budismo', ao indivíduo que aparece, se mostra, se destaca. Não é de se surpreender com a perplexidade e mesmo desapontamento que alguns têm quando expostos a ensinamentos do Buddha, pelos menos aqueles ensinados por ele... Continuando com as homenagens aos cem anos de aniversário de Tan Ajahn Buddhadasa, seguimos, na seção de 'Tributos', à procura daquele esquivo senso de desapego...

Originalmente publicado no blog "Folhas do Caminho".

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Paz


Aquele que protege sua mente da cobiça, e da ira, desfruta da verdadeira e duradoura paz.

(Shakyamuni Buddha)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O Natal dos Simpsons


Presentes sob a Árvore Boddhi

No episódio dos Simpson “She of Little Faith”, Lisa entra em crise com sua fé e se converte ao Buddhismo, o Reverendo Lovejoy tenta dissuadi-la dizendo que ela não pode mais celebrar o Natal porque “Papai Noel não deixa presentes embaixo da Árvore Boddhi”.

Então Lisa visita o “Templo Buddhista de Springfield” onde Lenny, Carl e Richard Gere estão meditando e recebe um conselho excelente:

Gere: … Buddistas respeitam a diversidade de religiões, consideram válida toda religião baseada no amor e compaixão.

Lisa: … Como é… ?!

Gere: … É verdade. Então porque você não volta para casa? Estou certo que sua família sente sua falta.

Lisa: … Eu posso mesmo celebrar o Natal?

Gere: … Você pode celebrar qualquer data. E, não esqueça, meu aniversário é 31 de agosto -

Então, se você ainda estava preocupada, relaxe… Você pode comer panetone e peru de Natal e ainda manter-se buddhista :-).

Mas seja rápida pois ambos estão sujeitos a impermanência e pode não sobrar um pedaço para você.

Já as tortas e bolos podem levar à compreensão que não existe uma diferença inerente entre um objeto de apego e um objeto de aversão, só depende de quantas fatias você já comeu…

Adaptado de “Can Buddhists Celebrate Christmas?”

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

sábado, 20 de dezembro de 2008

"Evoluídos sentem raiva só por um minuto"


As escrituras do yoga dizem que uma pessoa evoluída conserva sua raiva por um minuto; uma pessoa comum conserva-a por meia hora e uma pessoa ainda não evoluída conserva sua raiva por um dia e uma noite. Mas uma pessoa cheia de mágoas lembra-se de sua raiva até morrer.

É humano sentir raiva, faz parte de nossa evolução, mas devemos esquecê-la rapidamente. Não devemos alimentá-la nos lembrando dela, nem remoendo acontecimentos passados, porque a raiva causa uma grande inquietude interior.

Somos as primeiras vítimas de nossa própria raiva. Ela nos queima por dentro, tirando nossa paz; obscurece nossos pensamentos, distorce nossas percepções.
A raiva acumulada, guardada um pouco aqui e ali, nos prejudica muito e nos afasta de nossa verdadeira natureza, de nossa bondade e compaixão.

As pessoas pensam que alguém ou algo lhes provoca raiva, mas essa raiva já existe dentro delas, é criada e mantida por elas. Se você sente raiva, não pode culpar a ninguém a não ser você mesmo.

Aprenda a lidar com a raiva

É necessário aprender a lidar com a raiva e nos livrar de seus efeitos negativos tanto físicos, mentais e espirituais.

Como o desejo está muito ligado à raiva, é importante quando sentimos raiva perguntar a nós mesmos o que queremos desta situação que não estamos conseguindo. Isto cria uma mudança em nosso foco. E em vez de ficarmos presos na raiva, nós a observamos. E logo depois, podemos perguntar a nós mesmos de que outra maneira podemos conseguir o que queremos. E podemos perceber que idéias alternativas surgem na mente no mesmo instante e isto nos ajuda a controlar nossa frustração e diminui a raiva.

Existem pessoas que gostam de ficar com raiva. Sentem satisfação, poder e liberdade quando têm explosões de raiva. Acham que até aliviam as tensões, mas depois se culpam e lutam para controlar isso. Ajudaria muito se elas entendessem que mesmo que possam sentir alívio no momento, isto não funciona. A raiva apenas escraviza, e é prejudicial tanto fisicamente, psicologicamente e espiritualmente.

Porém existem momentos que a raiva é incontrolável e nem temos tempo de nos fazer perguntas sobre o que queremos. Nesses momentos, não é possível sentir desapego, ficamos presos completamente.

O que podemos fazer?

A melhor saída é sair da situação, dar uma volta, se afastar do ambiente ou da pessoa, tomar um copo de água, respirar algumas vezes profundamente, e meditar.

Depois quando nos acalmarmos, podemos voltar e lidar com o assunto de uma maneira mais equilibrada, sem ofender e magoar-nos; sem nos desequilibrar.
Quando falamos de uma maneira tranqüila sem raiva, o outro pode até nos entender e ouvir melhor, mas quando falamos com raiva só criamos mais conflitos e desarmonia.

Para se afastar no momento da discussão ou apenas ficar calado até se acalmar é necessário humildade. Quando estamos com muita raiva, queremos que a outra pessoa admita que está errada e isto é orgulho, e orgulho é EGO. Esse ego impede que nos acalmemos. Mas se você admitir que dissolver a raiva é mais importante do que provar que o outro está errado, você sente a humildade que lhe liberta da tirania da raiva.

Todos os inimigos internos alimentam uns aos outros e se estamos presos no orgulho é mais difícil lidar com a raiva. A humildade nos ajuda a testemunhar o que está acontecendo dentro de nós.

Em vez de guardamos raiva por horas, ou dias, podemos largá-la logo e evitar assim muitos momentos de sofrimento. Basta não alimentarmos essa raiva, não remoendo e lembrando acontecimentos passados. Se voltarmos nossa atenção para outras coisas e para o momento presente, ficamos livres da raiva e podemos ter momentos felizes.

A raiva acumulada desde a infância gera a depressão que tira a alegria de viver. Hoje em dia muitos médicos receitam remédios para depressão que podem até aliviar um pouco os sintomas, mas enquanto a pessoa não chegar na causa verdadeira da depressão, ela vai ficar sempre dependente e triste, pois depressão é uma doença da mente humana.

"Aquele que é capaz de suportar, aqui na terra, a agitação que resulta do desejo e da raiva, é disciplinado; senhor de sua mente; ele é verdadeiramente um homem feliz."

Cultive emoções positivas
Porém não podemos nos libertar da raiva simplesmente suprimindo-a. É necessário cultivar com constância os antídotos da raiva: a tolerância a paciência e a compaixão.

Perceba em sua vida os efeitos benéficos da tolerância e da paciência e perceba também os efeitos destrutivos e negativos da raiva, dos ressentimentos e mágoas.
Esta contemplação e conscientização o motivará a desenvolver sentimentos de tolerância, paciência e aceitação além de fazer com que você tenha mais cuidado em não alimentar pensamentos de raiva.

Para ficarmos livres desse inimigo interno tão destrutivo que surge de uma mente insatisfeita e descontente, é essencial gerar o contentamento interior através da meditação, gratidão e o entusiasmo; cultivar a bondade, a benevolência e a compaixão. Isto vai produzindo serenidade mental que impede a raiva de se manifestar.

A prática regular da meditação nos ajuda muito a dissolver a raiva e transformá-la em paciência, aceitação, e o perdão surgirá espontaneamente. Com o perdão podemos abandonar os sentimentos negativos associados aos acontecimentos passados nos livrando das sensações de raiva e ressentimentos.

Fique em paz!
RAY PINHEIRO

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Lei do Carma


A lei do carma, que significa literalmente lei de causalidade dos atos, diz que todo ato realizado na dualidade de um sujeito e de um objeto, quer seja esse ato físico, verbal ou mesmo mental, acarreta um efeito de volta para aquele que age. Esse efeito e de início completamente invisível e imperceptível, semelhante a uma marca ou uma semente que se inscreveria nas camadas mais sutis da consciência individualizada, aquém mesmo do inconsciente dos psicanalistas, na alayavijnana, isto é, o reservatório, ou melhor, o potencial de consciência. A partir desse estado latente começa um processo de maturação que se estende geralmente por várias vidas, até mesmo sobre centenas de vidas, ao fim do qual a semente cármica exprime-se determinando, sejam circunstâncias gerais de uma existência (sexo, nacionalidade, riqueza, possibilidades físicas, intelectuais e afetivas, etc.), sejam condições passageiras (uma doença, um encontro, um sucesso, um fracasso, etc.). O todo funciona – trata-se apenas de uma comparação – à maneira de um computador: os dados ali são extremamente numerosos, agindo uns sobre os outros, e a adição de novos dados modifica, mais ou menos, os resultados. Visto que agimos constantemente sob o império da dualidade – funcionamento deformado que só cessa com a liberação – é um fluxo permanente de novos elementos que nutre nosso potencial cármico, ao mesmo tempo que urna constante maturação elimina dele antigas impregnações. O conjunto do processo, longe de ser estático, é um movimento contínuo. Resta não esquecer que todos os fenômenos que regem nossa vida são a expressão de nosso carma e que isolar um elemento é um erro com freqüência cometido. Pensar que, por exemplo, se caímos enfermos, é um resultado cármico e que é, portanto, inútil nos tratarmos é uma concepção completamente fragmentaria, esquecendo que nosso carma quer que tenhamos também médicos e hospitais a quem nos dirigirmos. A lei do carma é, de fato, uma visão muito ampla das leis físicas que regem nosso universo. Se semeamos trigo, não crescera arroz. O acaso não governa nesta matéria, assim como não interfere nas condições de existência dos indivíduos. Muito complexo, pois dependendo da interação de urna infinidade de elementos, a causalidade cármica resume-se, portanto, a um principio muito simples: quem cria o sofrimento imprime em seu próprio âmago um potencial de sofrimento, quem cria a felicidade imprime um potencial de felicidade.

Extratos do livro de Bokar Rimpoche "Meditação - Conselhos ao Principiante" - ed. Shisil

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Educação: Escola terá aulas de meditação


Rio - A Secretaria Estadual de Educação apóia um projeto que quer estimular a meditação como forma de pacificar alunos e comunidades violentas.

Uma ONG internacional vai construir, entre Vigário Geral e Parada de Lucas, em terreno do governo federal, uma escola em que os alunos serão estimulados a meditar, por 15 minutos, duas vezes ao dia.

Estudo de uma universidade americana mostraria que a meditação de um grupo de duas mil pessoas geraria sensações de paz para a comunidade.

DAVID LYNCH

O estudo foi apresentado à secretária de Educação, Tereza Porto, pelo cineasta americano David Lynch, que veio ao Brasil neste ano para lançar um livro e divulgar os benefícios da meditação. Na época, Lynch chegou a declarar que a meditação em grupo é "a chave para a paz".

MENTE LIMPA

As técnicas de meditação procuram fazer com que a pessoa 'esvazie' a mente, concentrando-se em um só objeto ou em uma atividade do corpo, como a respiração.

Fonte: O Dia Online

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A dança das abelhas


Somos aquilo que sentimos e percebemos. Se estamos zangados, somos a raiva. Se estamos apaixonados, somos o amor. Se contemplamos um pico nevado, somos a montanha. Ao assistir a um programa de televisão de baixa qualidade, somos o programa de televisão. Enquanto sonhamos, somos o sonho. Podemos ser qualquer coisa que quisermos, mesmo sem uma varinha mágica.

Extraído do livro "O sol meu coração" de Thich Nhat Hanh.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mente Zen


O que devemos é ter a mente de principiante, desapegada da posse de qualquer coisa, uma mente que sabe que tudo está em processo de mudança. Nada existe a não ser momentaneamente, em sua forma e cor presentes. Uma coisa se transforma em outra e não pode ser detida. Antes que a chuva pare ouvimos o trinar de um pássaro. Mesmo sob o peso da neve vemos campânulas brancas e alguns rebentos. Já vi ruibarbos no Leste. No Japão, comemos pepino na primavera.

Extraído do livro "Mente Zen, Mente de Principiante" de Shunryu Suzuki.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um Garotinho Vai para o Céu

Um garotinho bateu a porta do paraíso e quando São Pedro chegou, ele pediu permissão para entrar. São Pedro disse-lhe para esperar um pouco, enquanto ia consultar Deus. Enquanto esperava, o menino olhou em volta, para a ampla paisagem que o rodeava. Como era fim de outono, as árvores estavam cobertas com folhas douradas, avermelhadas, alaranjadas e verdes. Até onde o olhar podia alcançar, havia árvores fulgurantes, umas atrás das outras, colinas e colinas de beleza flamejante.
São Pedro então retomou.
- Eu tenho a resposta de Deus. Você vê todas aquelas árvores? - e mostrou com a mão 360 graus no horizonte.
O garotinho respondeu:
- Sim.
Pedro continuou:
- Deus disse que, quando as folhas tiverem caído dessas árvores tantas vezes quanto há folhas nas árvores, você poderá entrar no paraíso.
O garotinho sentou-se sem pressa e, olhando para São Pedro, disse-lhe:
-Por favor, diga a Deus que a primeira folha já caiu.

Extraído do livro A prática do Zen de Albert Low

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A Iluminação é como a lua...


"A Iluminação é como a lua refletida na água. A lua não se molha, nem a água é perturbada. Embora a sua luz seja vasta, a lua reflete-se até mesmo no charco mais minúsculo. Toda a lua e todo o céu se refletem em gotas de orvalho na erva ou numa única gota de água."

(Dogen)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O Som do Silêncio


Ouço a voz
Do coração no silêncio
O zumbido da mata
No silêncio
Asas do pensamento
Ronco do trovão e o mantra do tempo

E a gente sente
Mata trovão zumbindo
E a gente dança
Asas coração mantra

E a gente entende
Que não existe silêncio
Quando canta o mundo
Na flor da garganta

Tatiana Rocha
Composição: Luli

O tédio


Os monges Zens, quando querem meditar, sentam-se diante de uma rocha: “agora vou esperar esta rocha crescer um pouco”, dizem.

Tudo a nossa volta está mudando constantemente.

A cada dia que o sol nasce, ilumina um mundo novo. Aquilo que chamamos de rotina, está cheia de novas propostas e oportunidades. Mas, como estamos por demais acostumados com ela, não percebemos que cada dia é diferente do anterior.

Hoje, em algum lugar, um tesouro lhe espera. Pode ser um pequeno sorriso, pode ser uma grande conquista - não importa.

A vida é feita de pequenos e grandes "milagres". Nada é aborrecido, porque tudo está mudando constantemente.

O tédio não está no mundo, mas na maneira como vemos o mundo.

Como dizia o poeta T.S. Eliott: “percorrer muitas estradas/ voltar para casa / e olhar tudo como se fosse pela primeira vez”.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Apenas observe


Não és o corpo, não és os sentimentos e não és os pensamentos.

És a consciência silenciosa que observa tudo isso.

Repousa a mente nesse silêncio e descobrirás quem realmente és.

(Aruna)

domingo, 7 de dezembro de 2008

A Sujeição de um Fantasma


Uma jovem esposa adoeceu e estava para morrer. “Eu o amo tanto”, disse ela a seu esposo, “não quero deixá-lo. Não me troque por nenhuma outra mulher. Se fizer isso, voltarei como fantasma e lhe causarei infinitos problemas”.

Logo depois a esposa faleceu. O marido respeitou o seu último desejo por três meses, mas depois encontrou uma outra mulher e se apaixonou por ela. Eles ficaram noivos e iam se casar.

Imediatamente após o noivado, um fantasma passou a aparecer todas as noites ao homem, culpando-o por não ter mantido sua promessa. O fantasma também era esperto. Ele lhe disse exatamente o que havia se passado entre ele e sua nova amada. Sempre que dava um presente à sua noiva, o fantasma o descrevia em detalhes. Ele até mesmo repetia conversas e importunava tanto o homem que este não conseguia dormir. Alguém lhe aconselhou a levar o seu problema a um mestre zen que vivia próximo da vila. Finalmente, em desespero, o pobre homem foi até o mestre pedir ajuda.

“Sua antiga esposa tornou-se um fantasma e sabe tudo o que você faz”, comentou o mestre. “O que quer que você faça ou diga, o que quer que você dê à sua amada, ela sabe. Ela deve ser um fantasma muito sábio. Você, na verdade, deveria admirar um tal fantasma. Na próxima vez que ela aparecer, barganhe com ela. Diga-lhe que ela conhece tanto que você não pode esconder nada dela, e que, se ela responder-lhe uma pergunta, você promete que desmanchará o noivado e permanecerá solteiro.”

“Qual é a pergunta que devo fazer a ela?”

O mestre respondeu: “Pegue um punhado de grãos de soja e pergunte a ela exatamente quantos grãos você tem em sua mão. Se ela não puder lhe responder, você saberá que ela é apenas uma invenção da sua imaginação e não lhe perturbará mais.”

Na noite seguinte, quando o fantasma apareceu, o homem a bajulou e disse-lhe que ela sabia tudo.

“Isso mesmo”, respondeu o fantasma, “e sei que você foi ver um mestre zen hoje”.

“E já que você sabe tanto”, perguntou o homem, “diga-me quantos grãos eu tenho nesta mão!”

Não havia mais nenhum fantasma para responder a pergunta.

Conto Zen.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Meu Coração Arde Como o Fogo


Soyen Shaku, o primeiro instrutor de zen a vir para os Estados Unidos, disse: “Meu coração arde como o fogo, mas meus olhos são tão frios como cinzas apagadas.” Ele fez as seguintes regras, as quais ele praticava todos os dias de sua vida:

De manhã, antes de vestir-se, acenda incenso e medite.

Recolha-se a uma hora certa. Alimente-se em intervalos regulares. Coma com moderação e nunca até o ponto de satisfação.

Receba o convidado com a mesma atitude que você tem quando está sozinho. Quando sozinho, mantenha a mesma atitude que você tem ao receber convidados.

Observe o que você diz, e o que quer que você diga, pratique-o.

Quando uma oportunidade surgir, não a deixe passar, contudo sempre pense duas vezes antes de agir.

Não se lamente sobre o passado. Olhe para o futuro.

Tenha a atitude destemida de um herói e o coração amoroso de uma criança.

Ao se recolher, durma como se você tivesse ingressado em seu último sono. Ao despertar, deixe sua cama para trás instantaneamente, como se você tivesse jogado fora um par de sapatos velhos.

Sabedoria Zen.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Certo ou Errado


Quando Bankei realizava suas semanas de retiro de meditação, estudantes de muitas partes do Japão compareciam. Durante um desses encontros, um estudante foi pego roubando. O assunto foi relatado a Bankei com a solicitação de que o estudante fosse expulso. Bankei ignorou o caso.

Mais tarde o estudante foi pego em um ato semelhante, e mais uma vez Bankei desconsiderou a questão. Isso irritou os outros estudantes, que redigiram uma petição pedindo o afastamento do ladrão, afirmando que, caso contrário, eles iriam embora em grupo.

Quando Bankei leu a petição, ele convocou todos para comparecerem à sua presença. “Vocês são irmãos sábios”, ele lhes disse. “Vocês sabem o que é certo e o que não é certo. Vocês podem ir para algum outro lugar para estudar se quiserem, mas esse pobre irmão não sabe nem mesmo distinguir o certo do errado. Quem lhe ensinará se eu não o fizer? Vou mantê-lo aqui mesmo que todos vocês partam.”

Uma torrente de lágrimas limpou o rosto do irmão que tinha roubado. Todo o desejo de roubar havia desaparecido.

Conto Zen.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Hora de Morrer


Ikkyu, o mestre zen, era muito inteligente até mesmo quando era apenas um menino. O seu instrutor possuía uma preciosa xícara de chá, uma peça antiga rara. Ikkyu acabou quebrando essa xícara e ficou completamente perplexo. Ouvindo os passos de seu instrutor, ele segurou os pedaços da xícara atrás de si. Quando o mestre apareceu, Ikkyu perguntou: “Por que as pessoas têm que morrer?”

“Isso é natural”, explicou o homem mais velho. “Tudo tem que morrer e tem um tempo determinado para viver.”

Ikkyu, mostrando a xícara despedaçada, acrescentou: “Era tempo da sua xícara morrer.”

Conto Zen.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A Lua Não Pode Ser Roubada


Ryokan, um mestre zen, vivia o tipo mais simples possível de vida em uma pequena cabana no sopé de uma montanha. Uma noite, um ladrão visitou a cabana e surpreendeu-se ao descobrir que não havia nada nela para ser roubado.

Ryokan voltou e o pegou. “Você provavelmente veio de longe para me visitar”, disse ele ao gatuno, “e você não deve voltar com as mãos vazias. Por favor, tome minhas roupas como um presente”.

O ladrão ficou completamente desnorteado. Ele pegou as roupas e escapuliu.

Ryokan sentou-se nu, observando a Lua. “Pobre rapaz”, ele pensou, “eu gostaria de poder ter dado a ele essa bela Lua.”

Conto Zen.

domingo, 30 de novembro de 2008

Ainda a está carregando?

Os contos zen são uma categoria à parte da sabedoria oriental. São como as parábolas que nós, ocidentais, popularmente conhecemos através das histórias de Jesus, mas que estão presentes nas mais diversas culturas. O formato se assemelha: contos bastante sintéticos, de onde são extraídas lições morais, ou preceitos religiosos, ou simplesmente ponderações sobre a vida. Mas qualquer que seja a origem, para compreender uma parábola ou conto zen, é preciso transcender o senso comum e “abrir a mente” para novas percepções que podem mudar a forma de lidarmos com a vida habitualmente.


Tanzan e Ekido estavam uma vez viajando juntos por uma estrada lamacenta. Uma chuva forte caía persistentemente.

Numa das curvas da estrada, eles encontraram uma moça adorável, vestida com um quimono de seda e com uma faixa, que não conseguia atravessar o cruzamento.

“Venha cá, menina”, disse Tanzan imediatamente. Levantando-a em seus braços, ele carregou a moça através da lama.

Ekido não falou mais nada até aquela noite em que eles chegaram a um templo com pousada. Ele então não pôde mais se conter. “Nós, monges, não nos aproximamos de mulheres”, disse ele a Tanzan, “sobretudo não das jovens e graciosas. É perigoso. Por que você fez aquilo?”

“Eu deixei aquela menina lá”, disse Tanzan. “Você ainda a está carregando?”

Conto Zen. (Originalmente postado no Blog Cultura do Oriente)

sábado, 29 de novembro de 2008

"Quem olha para fora, SONHA... quem olha para dentro, ACORDA!"

(CARL GUSTAV JUNG)

Quando refletimos acerca do significado do verdadeiro silêncio, temos que considerá-lo a partir de dois ângulos: O primeiro consiste em ver o silêncio através dos olhos humanos; e o segundo, em ver o silêncio através dos "olhos de Buda", ou do olho universal DAININ KATAGIRI.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Mente simples


A única mente que pode enxergar a vida de maneira transformada é a simples. O dicionário define simples como "tendo ou sendo composto por apenas uma parte". A percepção consciente pode absorver uma multiplicidade de coisas, da mesma forma como o olho consegue captar muitos detalhes ao mesmo tempo. Mas em si mesma a percepção consciente é uma coisa só. Ela permanece inalterada, sem acréscimos ou modificações. A percepção consciente é completamente simples; não temos de acrescentar nada, nem de modificá-la. É despretensiosa e isenta de arrogância. Não pode evitar de ser assim, a percepção consciente não é uma coisa, para ser afetada por isto ou aquilo. Quando vivemos a partir da pura percepção consciente, não somos afetados por nosso passado, nem pelo presente, nem pelo futuro. Uma vez que a percepção consciente nada tem que possa servir-lhe de fingimento, é humilde. É modesta. Simples.

Extraído do livro "Nada Especial" de Charlotte Joko Beck.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

MOMENTO PRESENTE


Este é o único momento para se viver. Se vocês perdem o momento presente, perdem seu compromisso com a vida. Buddha disse que vida só está disponível no momento presente. "Momento maravilhoso", esta é a vida que vocês tocam. De repente a felicidade torna-se possível. Estar vivo, tocar o céu azul, a terra, inspirando e expirando livremente, nos permitindo descansar o corpo e a consciência, já é uma coisa maravilhosa. Nossa percepção sempre continua crescendo. Você não tem que procurar um "curso intensivo" de meditação, ou um "nível alto" de meditação, ou uma prática "intensiva" ou "alta". Lin-Chi, o fundador da escola Rinzai de meditação, disse, "O milagre não é caminhar no fogo ou no ar tênue, o milagre é caminhar na terra". Se a consciência está lá, você está executando o milagre de estar vivo a cada momento.

(extraído de"A Arte de Curar a Nós Mesmos"ensinamentos do Mestre Thich Nhat Hanh)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Isso é o Karma


Nossas ações viram causas e, dessas causas, naturalmente, vêm resultados. Tudo que é colocado em movimento produz um movimento correspondente. Se você joga uma pedra em uma lagoa, formam-se ondulações em círculos, batem na margem e voltam. O mesmo se passa com o movimento dos pensamentos. Quando os resultados desses pensamentos retornam, sentimo-nos vítimas indefesas: "Estávamos inocentemente vivendo nossa vida... por que todas essas coisas estão acontecendo conosco? "O que acontece é que as ondulações estão voltando para o centro. Isso é o karma.

Chagdud Tulku Rinpoche, em "Portões da Prática Budista".

sábado, 22 de novembro de 2008

Qual o caminho?


Tudo em nossa vida pode ser simplesmente uma obrigação, ou pode ser uma maneira de seguir o caminho.

Três operários trabalhavam numa obra, quando um homem aproximou-se.

“O que você está fazendo?“ perguntou ao primeiro operário.
“Estou ganhando a vida!“, disse, mal humorado.

O visitante virou-se para o segundo operário e fez a mesma pergunta. “Estou quebrando pedras”, respondeu ele.

Finalmente, o visitante se aproximou do terceiro homem e fez a mesma pergunta.
“Estou construindo um templo”, foi a resposta.

Os três faziam a mesma coisa. Mas apenas o terceiro compreendia verdadeiramente sua tarefa.

“Quando alguém pergunta: Qual o caminho? O Zen responde: “Simplesmente caminhe!”

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Karma


A palavra [karma] penetrou na consciência ocidental, a partir do ponto de vista budista, pelo menos, em certa aparência distorcido. É muitas vezes chamada de Lei de Causa e Efeito, portanto, é sobre as consequências e as ações do corpo, fala e mente. E as consequências são muito importantes no budismo.

Qualquer ação que se fizesse, porém sutil, pela pessoa que exerça sempre vai produzir um futuro "amadurecimento" e, em última análise, um "fruto" de qualidade moral semelhante, porque a esfera humana do karma opera de uma maneira ética. Então, uma ação antiética irá produzir conseqüentemente uma causa dessa natureza, ainda nesta manifestação ou em algum futuro renascimento; e o mesmo acontece em relação a ações moralmente boas ou indiferentes que são desenvolvidas e livremente empreendidas. Na Bíblia diz-se algo semelhante: que nós vamos colher o que semeamos. Se quisermos progredir espiritualmente - ou mesmo apenas viver com o mínimo de agravamento - por isso, devemos ser muito cautelosos na nossa fala e ação, pois não há maneira de podermos escapar às consequências.

- John Snelling, Elementos do Budismo.
de Everyday Mind, edited by Jean Smith, a Tricycle book.

A coragem do mestre


Um rei chamado Nobushige foi até o mestre Zen Hakuin, e perguntou: “por acaso existe o inferno e o paraíso?

O mestre ficou calado. O rei insistiu algumas vezes, até que Hakuin disse: “quem é o senhor para vir até aqui perturbar a minha tranqüilidade?”

A face de Noboshige ficou vermelha de raiva.

“Sou um rei, o senhor de todas estas terras!”

“Que rei idiota! Imagine, viajar para tão longe só para fazer uma pergunta estúpida!”

Noboshige começou a desembainhar sua espada.

“Ah, então o senhor está armado!”, riu o mestre zen. “Pois aposto que esta espada está cega e enferrujada!”

“Você verá!”, bradou o rei. “Minha fúria é como inferno na terra!”

O mestre zen abriu o quimono e mostrou o peito. “Vamos! Acabe com minha vida! Assim que esta espada tocar o meu coração, estarei no paraíso!”

Houve um momento de silêncio.

O mestre zen olhou direto para Noboshige: “então, respondi sua pergunta? O inferno é perder o controle apesar do poder. O paraíso é manter o controle, apesar do medo”.

Conto Zen.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Mente Una


O Venerável Nagarjuna disse, “A mente que vê profundamente o fluxo do nascimento e da morte e reconhece a natureza transitória do mundo é conhecida por Mente da Iluminação.”

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A nevoa azulada


No monte, o templo
envolto em cobertor
de neve azulada.

Vagarosamente
o horizonte se revela.
Dissipa-se a névoa.

Poesia Zen.

domingo, 16 de novembro de 2008

O inimigo sou eu


"Ter controle sobre a mente é um desafio. Em geral, estamos no passado, nostálgicos ou lamentosos. Ou no futuro, antecipando catástrofes ou adiando possibilidades.
No presente, nunca." Eliane Brum - leia a matéria aqui!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Meditação no Hospital


Lembremos que o Ministério da Saúde recomendou a prática de meditação com finalidades terapêuticas, a iniciativa de membros do Templo Busshinji em SP está descrita abaixo, um exemplo a ser seguido:

"Através do zazen, podemos despertar qualidades naturais de alegria, compaixão, liberdade, harmonia e respeito para com todos os seres, favorecendo, assim, o desenvolvimento de uma comunidade pacífica e feliz.

Nesse sentido, iniciam-se a partir de 10 de novembro práticas de zazen no Hospital do Servidor Público Municipal, sob responsabilidade dos monges Jisho e Koun e do praticante Shokan. A prática é aberta ao público em geral (e não apenas a funcionários, pacientes e visitantes).

O Hospital conta com uma sala de meditação, com vários zafus e zabutons, num recinto agradável e apropriado para o zazen.

Todos estão convidados a participar e a divulgar essa iniciativa.

Local:
Hospital do Servidor Público Municipal
9º andar – Sala de Meditação.
Rua Castro Alves, 60 – Aclimação
Metrô Vergueiro
São Paulo

Horários:

Segundas e terças-feiras
7:00, 7:45, 8:30, 9:15."
(Do blog Sangha Margha)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Milho de pipoca

"Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre"

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui.

Com isso, a possibilidade da grande transformação também. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela.

A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! e ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado. Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.

“Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.”

Rubem Alves, psicanalista, educador, teólogo e escritor.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Do mundo virtual ao espiritual

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café-da-manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos produz felicidade?"

Encontrei Daniela, de 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: "Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde". Comemorei: "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde". "Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: "Que pena, a Daniela não disse: `Tenho aula de meditação!´"

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a inteligência emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem 60 academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto?". "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é entretenimento; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir!O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, falta de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro se sente uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos,todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald´s...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: `Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.´"
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Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo e outros, de O desafio ético (Garamond), entre outros livros.